Homens&Pássaros

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Terça-feira, 17 / 08 / 10

No coração da noite

No coração da noite
pinceladas de trevas
expõem,
como rosas de fogo,
as feridas da amada.

Ó amada querida, não sofras!
Por ti deixei o paraíso
e desci ao inferno da vida.
Vasculhei os profundos poços da tristeza
e encontrei os teus olhos molhados
de úmida madrugada.

Nada entre nós foi tudo
fomos um pouco de ausência
um pouco de esquecimento
e esquecemos nossa aliança de amor
nas esquinas de Olinda.

A cidade caía sobre nós feito chuva
uma forte chuva ácida
corrosiva e quente
que destruía o esmalte dos desejos
e da vontade construída pelos anos vividos.

Tua ferida amada
não mostra só a ti sozinha e decepcionada.
Mostra também a mim
um retalho de horizontes
dentro do mar ensimesmado.

Caí contigo.
E juntos rolamos pelas ladeiras do Carmo
em gemidos de dor e desespero.
A rosa vermelha se abria
o coração pulsava.
De onde viéramos não constava o mapa
e onde estávamos era um fronteira sem marcas
um território longínquo
um estar sem alma
um pesadelo sem dormir.

Por isso amada
a ferida se abre.
Hoje ela se abre no leito desfeito
e se esparrama amarga pelo tempo
e nada conseguirá deter o ressentimento
daqueles momentos doídos
daqueles momentos líquidos
que escorreram entre os dedos trêmulos
daquelas tardes cinzentas.

Dorme, ó amada!
ao teu lado morrerei um pouco
mais um pouco da morte que já sou
e velarei em silêncio o teu segredo
e afagarei com espinhos
a rosa que se abre
no fundo fechado dos teus olhos
de onde as lágrimas escorrerão macias
e molharão a noite
de uma maneira suave e triste
como se fossem nossas vidas
hoje tão distantes de nós
hoje tão adormecidas
hoje tão definitivamente sozinhas.

Santos/sp/13:25hs/Domingo)

publicado por Antonio Medeiro às 08:49
Terça-feira, 06 / 04 / 10

Minhas memórias

Seu eu fosse um país, diria: estão destruindo as minhas memórias.

Sem brincadeira!

Esta semana dei uma volta por Olinda/PE e fiquei chocado.

Morador que fui de Olinda por quase 05 anos, calcei o meu chinelão de couro e fui atrás das minhas memórias: praças, barracas de praia, restaurantes, bares... pessoas.

Tudo acabado!

Procurei pela Barraca de Tia Amélia, nada!

Procurei pelo meu Chambaril preferido, sumiu!

O meu Queijo de Coalho, já era!

Minhas Agulhinhas Brancas, tchau!

A Fritada de Aratu, nem sinal!

O Caldinho do Esquina 90, evaporou!

Os Ovinhos de Codorna do Ceará, já eram!

O Bar da Buchadinha, beleléu!

Um resíduo do Bar Calamengau, graxa!... graxa!... graxa!...

Alguns amigos: mortos, ausentes, sumidos... desconhecidos!

O mais chocante foi a ausência do Bar mais importante de Olinda, no período que lá morei: O Xinxim Da Bahia, do meu amigo Élcio - o popular Xinxim.

Lá saboreávamos, além da presença sempre especial de Xinxim, uma boa Feijoada, um excelente Acarajé, um maravilhoso Cupim, um Cozido honesto, uma Cervejinha gelada... e um ambiente sempre agradável.

Tudo se foi.

No lugar, uma casa e um silêncio histórico.

Não me sobraram referências em Olinda.

Sou um país de quem extirparam um pedaço.

O mundo gira depressa demais pro meu gosto.

As coisas nascem e morrem, nascem e morrem, nascem e morrem, nascem e...

E nós ficamos atônitos, perdidos na ilha deserta da solidão humana.

Preciso preservar a minha história, senão, quando eu me for, vão me procurar pelas ruas por onde andei e não vão encontrar nem um rastro da minha presença na terra.

E eu não terei existido!

publicado por Antonio Medeiro às 08:32
Segunda-feira, 05 / 01 / 09

A BUCHADA

Textos Escolhidos

 

A mídia é uma faca de dois gumes.

Às vezes quer azarar - ajuda; outras vezes quer ajudar - azara.

Caso típico das eleições de 2006.

Caso típico do dono do Bar da Buchada, em Pernambuco, "Oclinho".

Relembrando:

Bar da Buchada, Olinda; ano de 1986.

Oclinho, o dono; a mãe de Oclinho.

A história:

Para mim e os meus amigos - o Negão Almir e Romildo - o Bar da Buchada, em Maranguape, era o nosso point de cerveja e violão.

Apenas um casebre com uma puxadinha na frente, uma buchada de bode de fazer inveja a qualquer restaurante de nome.

Oclinho, o dono, magrinho, cara chupada, uns óculos minúsculos, azuis, pendurados no meio do nariz.

A "Mõe", era como chamava a mãe, sempre dormindo.

Uma noite Oclinho estava animado com uma cadela que pariu um monte de filhotes de pastor alemão, no fundo do casebre.

Falava com muito entusiasmo do tamanho e da gordura dos cachorros.

Bebemos, cantamos, comemos a buchada maravilhosa, esquecemos os cachorros e ficamos o resto da semana sem aparecer no bar.

No final de semana, à noite, o Negão Almir chega em casa: branco, apressado, esbaforido.

Corre para o banheiro e uááá!!!... bota tudo para fora.

Gago que era: "A bu...bu...bu...cha...chadinha do... do...Oclinho!"

Eu: estava estragada?

Negão Almir: nã-nã-não! Sa-sa-saiu na... na... te...te...tele...vi...vi...são! E...e...eu...eu... eu vi...eu vi! Eu...eu...co...co...mi...comi lá ho...ho...hoje!

A buchada saiu na televisão, saiu nos jornais e saiu nos rádios.

Descobriram que Oclinho, durante a semana toda, tinha servido buchada de pastor alemão.

O safado fez buchada da ninhada de filhotes!

Resultado: o Negão Almir ficou uns seis meses sem passar perto de uma buchada e Romildo, que já se foi, não o deixava esquecer de maneira nenhuma da dita iguaria.

O Negão Almir vivia com ânsias.

Para o Bar da Buchada o resultado da denúncia foi imediato: cresceu de tal forma que chegava a ter duas bandas tocando no domingo.

O sucesso da propaganda foi absoluto!

Oclinho continuou magrinho, com sua carinha chupada, seus óculos minúsculos, azuis, pendurados no nariz e vendendo buchada como jamais imaginou na sua vida.

A "Mõe" acho que nem dormia mais!

A mídia fez o seu trabalho ao contrário: era pra azarar - ajudou.

Eu estava lá e aprendi uma coisa: antes de comer uma buchada em qualquer lugar, ponha um gato perto da panela. Se ele sair correndo, não coma!
.
TõeRoberto-11:08-post in jampa/pb

música: Respeita Januário - Luiz Gonzaga
publicado por Antonio Medeiro às 05:00
Domingo, 02 / 11 / 08

PERNAMBUCO

Textos Escolhidos

 

Eu amo Pernambuco!

Sua culinária: chambaril, arrumadinho, mão-de-vaca, carne de sol com macaxeira, queijo de coalho, saúna, agulha branca, cuscuz, queijo de coalho, moqueca de siri-mole, moqueca de arraia, bode, mungunzá, tapioca, canjica, pamonha, goiamum.

Suas frutas: serigüela, cajá, sapoti, pitomba, umbu, jaca, umbu-cajá, maracujá, pitanga, banana, caju, jambo, jenipapo.

Sua música: Geraldo Azevedo, Jorge de Altinho, Alceu Valença, Mestre Ambrósio, Cordel do Fogo Encantado, Chico Science, Nando Cordel, Luiz Gonzaga, Dominguinhos.

Seus ritmos: frevo, maracatu, afoxé, coco, caboclinho, manguebeat, forró pé-de-serra.

Suas praias: Ponta de Pedra, Itamaracá, Maria Farinha, Janga, Pau Amarelo, Olinda, Boa Viagem, Gaibu, Calhetas, Porto de Galinhas, Serramby, Barra de Sirinhaém, Tamandaré, São José da Coroa Grande.

Seus poetas: João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Carlos Pena Filho, Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira.

Seu carnaval: Pitombeiras, Elefante, Galo da madrugada, Bacalhau do Batata, as Virgens de Olinda, o Homem da Meia-Noite.

Sua língua: pão de caixa, bureau, grafite, liga, massa, oxente, mainha, sacudo, minino, Ricife, arretado.

Seus teatros, o seu cinema, seus artistas plásticos.

Seus rios, suas pontes, suas igrejas, seu casario antigo.

Sua gente engraçada.

Suas histórias.

Eu tive a felicidade de morar em Olinda e trabalhar no Recife.

No meu primeiro contato com a cidade do Recife aconteceu-me algo engraçado:

Com fome, eu e Nena sentamos num bar e pedimos uma cerveja e dois cachorros-quentes.

Veio a cerveja e logo em seguida dois sanduíches enormes de pão com carne moída e molho de tomate.

Reclamei!

Eu: acho que houve algum engano, eu pedi cachorro-quente!

Garçom: Pois num é, home?

Eu: Aquele que vem com pão e salsicha!

Garçom: Ah, é hot-dog! O senhor queria um hot-dog!

Calei a boca e comemos o cachoro-quente mais gostoso do mundo.

Lá, vivi e aprendi muitas outras coisas de sua cultura ímpar.
.
(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB.

música: Voltei, Recife - Alceu Valença
publicado por Antonio Medeiro às 18:16
Blog de TõeRoberto

Adamo&Isabelle

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