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Terça-feira, 12 / 05 / 09

CEGA

Só pra registrar!

Conheci uma cega - daquelas de olhos brancos, assustadores.

Sinistra! Chata! Assustadora! Uma personagem dos sonhos de Gabriel Garcia Márquez.

De manhã: eu, na varanda, lendo em silêncio - a cega passa na rua.

Cumprimenta e pergunta: "Bom-dia!... Que horas tem aí, moço?"

Arrepios!

Meio-dia: aquele baita sol - a rua deserta - eu, de tênis, descendo a rua - a cega subindo a rua.

A uns 30ms dela atravesso a rua para entrar no colégio.

Vocifera: "Não precisa atravessar a rua pra não passar perto de mim!"

Corri pra dentro do colégio.

Arrepios!

À tarde: a cega vindo pela rua, um pé de chuchu sobre o muro - alguns chuchus pendurados.

A cega levanta a bengala, localiza o chuchu e o apanha.

Arrepios!

Subia no ônibus, ia a São Paulo, descia sozinha, fazia o que tinha que fazer e voltava pra Minas.

300 Kms!

Arrepios!

Uma cega sinistra.

Hoje eu sei: a cega foi a pessoa que mais enxergava que eu conheci em toda a minha vida.

Eu, com meus dois olhos vivos, fui o cego absoluto - o cego que não enxergou a surrealista visão da cega.

Os dois olhos dos meus olhos estão brancos.

Arrepios!
.
TõeRoberto-post in férias por aí/br

música: Variada
publicado por Antonio Medeiro às 05:00
Quinta-feira, 23 / 10 / 08

QUE NÃO VOLTA MAIS

Textos Escolhidos

 

Lendo Cem Anos de Solidão me veio à memória meu antigo professor de matemática.

Não entendi o porquê, mas acho que por ser muito parecido com personagens do realismo mágico, da literatura latino-americana.

Dr. João!

Figura classuda, sisudo, justo, cabelos prateados, seu eterno terno de linho cinza-claro e seu humor irrepreensível.

"Seu Medeiros! - profetizava - o sr. nunca vai ser nada na vida!", ao entregar a minha prova, sempre de notinhas baixas.

Que vergonha!

"Seu Torquato - irônico - guarde o membrinho para brincar em casa!" Para o menino Torquato que mexia no piu-piu lá no fundo da sala.

"Quem foi?" - se passando por bravo - depois de levar uma bolada de papel grudado com cuspe bem no meio das costas. O menino Gueigue saindo da sala de mansinho.

"Ah, seu Salomão, não ameace o seu Medeiros para que ele lhe passe cola! Ele também não sabe!"

"Hoje, para fazer a prova, podem colar. Abram os livros!"

Ô tristeza! Era notinha baixa na certa!

O terno sempre cheio de picão. Andávamos com os bolsos cheios e ele era nossa vítima preferida. Via e fingia que não via.

Uma figura para se lembrar.

Os alto-falantes do pátio do colégio:

"Siempre que te pregunto/que cuando, como e donde/tu siempre me respondes/quizás, quizás, quizás..."

Havia, naquela época, um romance no ar.

Em março de 64, o romance e a música saem do ar.

Os coturnos e o toque de recolher entram nos pátios e nos alto-falantes das escolas.

Carregava isto comigo, precisava contar.

Só para relembrar aquele tempo que - espero - não volta nunca mais!
.
(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

música: Quizás, Quizás, Quizás - Lucho Gatica&Pery Ribeiro
publicado por Antonio Medeiro às 05:40
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