Idolatrados são os sonhos, os nossos!

Profundos voos,
claras crateras,
asas azuis,
iluminadas borboletas.

Pobre do homem sem sonhos!
Sem profundezas,
sem raríssimas delícias:
negras memórias de remotas épocas,
verdes esperanças de cenas
de metamorfoses viscerais,
de risos...de vida!

Sozinhos nascemos.
Sozinhos mergulhamos no infinito nada,
nos aborrecidos segredos das tristezas.

Os homens!
Ah, nós os homens!
Poças de sangue represadas,
suspiros coloridos, inertes,
pequenas coerências de miséria,
olhares indecisos, cegos mesmos;
e somos homens!,
elementares desertos de certezas
da fumaça do cigarro sobre a mesa.

E cantamos!
Bebemos goles de delícias
sobre o corpo acidentado dos desejos.
E vivemos!
Observem como vivemos!
Vivos conduzimos nossos erros,
alimentamos, sem vontade, nossos olhos
com as imagens distorcidas dos segredos.

Às vezes penetramos as entranhas
do mistério ensimesmado dos resíduos,
estas partículas espalhadas pela alma,
pedaços do que somos e não somos,
essas coisas penduradas nos arquivos
das nossas desprezíveis atitudes,
pequenos atos, confusos, obscenos,
contínuas violências gratuitas
fantasmas habitantes do instinto.

Mas sempre somos!
Alguma coisa nos conduz a sempre sermos
objetos de fatais indecisões.

Corrompemos, muitas vezes, a clareza
do que nascemos,
que vivemos,
que amamos,
sempre hostis às nossas imensas emoções.

Caminhamos, nós os homens, muitas vezes,
pelas artérias, essas quentes avenidas,
à procura do amor ou do sorriso,
todos aqueles levianos arrepios
da nossa alma, puta vã, cosmopolita.

E somos tolos!
Construímos altos muros,
branco aço,
cidadelas de angústias
e nos perdemos noite adentro de nós mesmos,
sempre sonhando ver o dia clarear.

E até amamos!
Imaginem que amamos!
Somos vertigens no silêncio de um quarto,
somos lembranças, ajuntamentos de pedaços,
e somos corpos relutando com os corpos,
e somos crises de sozinho que ficamos,
e imaginem!, até choramos bem quietinhos nosso medo
após olharmos se a porta está trancada.

E há pedaços de carinhos espalhados
por todo o quarto amanhecido na ressaca,
e nossos olhos, essas tristes aberturas,
que nunca fecham pra barrar a nossa mágoa,
estão, agora, à luz do dia, estatelados,
de tão cansados de pôr água em nossa barba.

E pobre do homem que não ama!,
que não consegue um sofrerzinho de querer,
aquele homem que só olha um ponto fixo
e não entende que seu olhar já nada vê.

Precisamos nos partir em mais pedaços,
em muitos cacos,
todos brilhos, muita luz,
precisamos aumentar nossas reservas
de sorrisos, de tesão, de bem querer,
ter mais vontades, mil sentidos, 10 mil almas
para nos darmos num sem fim até morrer.

Mas somos pobres!
Não há muito pra se dar, só pra querer,
há uma erosão de sentimentos em nosso corpo
nos corroendo dia a dia e a fazer
de cada parte ainda viva nas entranhas
um feroz lobo que de nós só quer o ter.

Como gritamos, nós, os homens!
quando, sozinhos, nos pegamos
a sorver feroz melancolia,
astutas armadilhas do silêncio.

E gritamos! ninguém ouve, mas gritamos!
Esperneamos, encolhemos, blasfemamos
e não adianta, ninguém vê.

Somos nós mesmos mergulhados na fumaça
de um passado acomodado na memória
que proibimos de sair pra ninguém ver.

E como ficamos ridículos!
E como ficamos trêmulos!
E como, à noite, os temores nos assustam.

O que fazem de nós, os temores!
nos chicoteiam, passam a mão na nossa bunda,
nos cospem na cara
e nos chamam de covardes.

E como ficam enormes!
Como se agigantam!
Como dançam cinicamente à nossa frente!
E como corajosos de medo ficamos!
E como levantamos, acendemos a luz,
acendemos o cigarro,
abrimos a cerveja
e madrugada adentro ficamos sós...
Ficamos sós,
nós e nossos temores,
mergulhados na tênue linha dos mortais,
no fumo e no álcool (um procurando o outro)
numa festa macabra e sem final.
(Santos/Sp-00:01hs)

publicado por Antonio Medeiro às 09:33