Outro dia eu estava em um forró numa barraca de praia.

Um grupo executando um forró pé-de-serra de boa estirpe.

Estava olhando o sanfoneiro - forrozeiro nato - e me lembrei de um falar que existia em Minhas Gerais nos meus tempos de criança:

"Fulano é Pinta-Brava!".

Comentei com Mél: coitada da mulher deste sanfoneiro, o sujeito é Pinta-Brava! Ele pertence ao forró.

É só olhar:

O sujeito é um condor sobrevoando as montanhas.

Um búfalo nas pradarias do velho oeste americano.

Um tubarão cortando as águas do oceano.

Um carioca assistindo a um FlaFlu.

Um brasileiro que ganhou a mega-sena.

É um homem livre.

O gingado do corpo, o manuseio da sanfona, a voz, o sorriso, a simpatia nata, o jeito com as mulheres, o repertório colocam o sujeito numa noutra esfera.

Não é um sujeito comum.

Não nasceu para fazer contas em bancos.

Usar a picareta na rua.

A enxada na roça.

A caneta no escritório.

O bisturi no hospital.

A voz na tribuna.

Não nasceu para fabricar bens.

Nasceu para tocar sanfona.

É um xifópago.

Nasceu grudado com ela.

Nasceu para fabricar sonhos.

São carne&unha.

Romeu&Julieta.

Tristão&Isolda.

Marco Antônio&Cleópatra.

Mar&horizonte.

É um sujeito fora das leis do universo.

Não é pobre nem rico.

É apenas um sujeito com o seu ritmo.

Com a sua música.

A sua alma despojada de tristeza.

Vive acima dos vis mortais que - sem importar a idade - encantados com a sua magia dançam, cantam, pulam e se rendem aos encantos de um homem que nasceu para sublimar.

Domingo eu vou de novo.

Quero me render aos encantos do Pinta-Brava.

E reencontrar o meu ritmo, que há muito tempo perdi!

publicado por Antonio Medeiro às 09:06