A música:

"Tanto tiempo disfrutamos este amor
nuestras almas se acercaron tanto asi
que you guardo tu sabor
pero tu llevas tambien sabor a mi..."

Definitivamente! Na outra encarnação eu fui puta!

Porque vou dizer uma coisa: vai gostar assim de um bolero lá não sei aonde!

A qualquer hora o bolero me inflama, me leva pra dentro da noite, aos bares escuros dos becos, à fumaça negra do cigarro - no ar - às bocas pintadas passionalmente, aos passos da dança suave que me faz flutuar.

O bolero me faz vivo, entra no peito - onda de calor - esquenta o coração e faz doer aquela dorzinha escondida nos cantos dos anos.

O bolero nos dá a fêmea volátil, aquela de doer os cornos, fazer nego beber, soluçar e se matar na base do prozac e da punheta.

O bolero e a fêmea se entrelaçam aos olhos notívagos da nossa eterna boemia; o terno de linho - branco - a cachacinha tomada a conta-gotas à luz dos mistérios da lua, ao som da orquestra suicida que queima com suas notas melancólicas a alma inocente da noite.

O bolero me mata aos poucos, me afunda no buraco negro dos meus amores esquecidos, me engasga com os sessenta cigarros que já abandonei e me afoga na cerveja tomada aos montes nas madrugadas insones.

Já fui puta - isto eu tenho certeza - porque ao som do bolero me vem às narinas o cheiro dos perfumes baratos, o odor dos suores fétidos dos homens do porto, o toque da cédula de U$20, o estalo do tapa no rosto, o gosto salgado das lágrimas na ponta da língua e a angústia da solidão sem fim.

O bolero é o meu limite entre o viver e o existir. O bolero é a minha alma, a minha cólica renal, a minha dor de dente, a minha dor de cotovelo, o meu tesão pelo que não fui.

Deixe o bolero fluir ao som do vento e, no silêncio da noite, deixe o bolero trazer em suas mãos atormentadas a possibilidade dos amores que choram em silêncio, nas notas da melodia, as suas dores mais lindas.

Deixe o bolero sofrer no fundo passional dos seus amores brutos.

"Pasáran más de mil años muchos más
yo no sé si tiene amor la eternidad
pero hoy tal como ayer
em tu boca llevarás sabor a mi..."

E vista o seu terno de linho - branco - e se lambuze na febre indecente das bocas avermelhadas da sua alma de puta.

publicado por Antonio Medeiro às 10:22