Homens&Pássaros

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Terça-feira, 28 / 12 / 10

A respeito de navios

Meu canto, amada,
passeia pela cidade sem alma
e descansa no porto.

A fome, embrutecida mulher,
discursa calma na periferia do porto
e espalha com pressa
sua doce mentira.

O trigo não alimenta
ele abastece de ouro
o estômago dos navios
e derrama o suor salgado do homem
no oceano de sal.

Ao longe, amada,
os guindastes transportam
o sofrimento humano
em pesadas cargas.

Os navios, criaturas pré-históricas,
chegam e partem
trazendo e levando em cada saco
em cada container
um pedaço de alma
um pedaço de corpo
um pedaço de vida.

E ninguém se importa.
Ninguém percebe o sofrimento duro
que os navios transportam.

Os homens procuram comida
(uns nos bares, outros nos lixos)
e comem suas feridas estampadas no bife
e no pão amanhecido.

Estou apreensivo, amada,
amargurado e pensativo
sentado no cais infinito.

Não penso em navios
nem em trigo
nem em feridas.

Penso na alma dos homens
suas vidas tristes
seus olhos sem ritmo
seus corpos anfíbios.

Penso neles, amada,
e no espelho das águas,
à beira do cais,
sou um deles
a vigiar navios.

Ah, amada,
como sou patético
a contar navios e navios
de sofrimento humano
como quem conta estrelas.

E o que importa isso?
Nada os detêm.
Nada os interceptam.

Longe, agora pequeninos,
eles avançam nas águas
carregados de dores
e sem qualquer importância
caem um a um
no abismo azul e profundo
do horizonte sem fim.
(Santos/Sp/13:10hs)

publicado por Antonio Medeiro às 06:58
Terça-feira, 21 / 12 / 10

Atitude

Aos poucos Sirenildo foi engolindo a separação.

Primeiro, jogou o veneno fora.

Em seguida, se livrou dos 05 metros de corda escondidos embaixo da cama.

Do 38 que comprou no porto.

Do vidro moído que vinha fabricando há tempos.

Dos 150 comprimidos de barbitúricos.

Da Bíblia que lia todas as noites.

5 anos sem fazer a barba; fez a barba, depois se livrou das lâminas de barbear.

Cortou o cabelo.

Comprou roupas.

Um par de sapatos.

E disse: foda-se!

Queimou o retrato de Ladyzaura, rasgou as fotografias de Sirenildo Jr e Ladynilda Maria - filhos - jogou gasolina na casa, riscou um fósforo e...

Virou as costas, deu um sorriso diferente dobrou a esquina e simplesmente... desapareceu.

Dizem que para sempre!

publicado por Antonio Medeiro às 08:56
Terça-feira, 14 / 12 / 10

Por nós (nem direitos, nem deveres)

Idolatrados são os sonhos, os nossos!

Profundos voos,
claras crateras,
asas azuis,
iluminadas borboletas.

Pobre do homem sem sonhos!
Sem profundezas,
sem raríssimas delícias:
negras memórias de remotas épocas,
verdes esperanças de cenas
de metamorfoses viscerais,
de risos...de vida!

Sozinhos nascemos.
Sozinhos mergulhamos no infinito nada,
nos aborrecidos segredos das tristezas.

Os homens!
Ah, nós os homens!
Poças de sangue represadas,
suspiros coloridos, inertes,
pequenas coerências de miséria,
olhares indecisos, cegos mesmos;
e somos homens!,
elementares desertos de certezas
da fumaça do cigarro sobre a mesa.

E cantamos!
Bebemos goles de delícias
sobre o corpo acidentado dos desejos.
E vivemos!
Observem como vivemos!
Vivos conduzimos nossos erros,
alimentamos, sem vontade, nossos olhos
com as imagens distorcidas dos segredos.

Às vezes penetramos as entranhas
do mistério ensimesmado dos resíduos,
estas partículas espalhadas pela alma,
pedaços do que somos e não somos,
essas coisas penduradas nos arquivos
das nossas desprezíveis atitudes,
pequenos atos, confusos, obscenos,
contínuas violências gratuitas
fantasmas habitantes do instinto.

Mas sempre somos!
Alguma coisa nos conduz a sempre sermos
objetos de fatais indecisões.

Corrompemos, muitas vezes, a clareza
do que nascemos,
que vivemos,
que amamos,
sempre hostis às nossas imensas emoções.

Caminhamos, nós os homens, muitas vezes,
pelas artérias, essas quentes avenidas,
à procura do amor ou do sorriso,
todos aqueles levianos arrepios
da nossa alma, puta vã, cosmopolita.

E somos tolos!
Construímos altos muros,
branco aço,
cidadelas de angústias
e nos perdemos noite adentro de nós mesmos,
sempre sonhando ver o dia clarear.

E até amamos!
Imaginem que amamos!
Somos vertigens no silêncio de um quarto,
somos lembranças, ajuntamentos de pedaços,
e somos corpos relutando com os corpos,
e somos crises de sozinho que ficamos,
e imaginem!, até choramos bem quietinhos nosso medo
após olharmos se a porta está trancada.

E há pedaços de carinhos espalhados
por todo o quarto amanhecido na ressaca,
e nossos olhos, essas tristes aberturas,
que nunca fecham pra barrar a nossa mágoa,
estão, agora, à luz do dia, estatelados,
de tão cansados de pôr água em nossa barba.

E pobre do homem que não ama!,
que não consegue um sofrerzinho de querer,
aquele homem que só olha um ponto fixo
e não entende que seu olhar já nada vê.

Precisamos nos partir em mais pedaços,
em muitos cacos,
todos brilhos, muita luz,
precisamos aumentar nossas reservas
de sorrisos, de tesão, de bem querer,
ter mais vontades, mil sentidos, 10 mil almas
para nos darmos num sem fim até morrer.

Mas somos pobres!
Não há muito pra se dar, só pra querer,
há uma erosão de sentimentos em nosso corpo
nos corroendo dia a dia e a fazer
de cada parte ainda viva nas entranhas
um feroz lobo que de nós só quer o ter.

Como gritamos, nós, os homens!
quando, sozinhos, nos pegamos
a sorver feroz melancolia,
astutas armadilhas do silêncio.

E gritamos! ninguém ouve, mas gritamos!
Esperneamos, encolhemos, blasfemamos
e não adianta, ninguém vê.

Somos nós mesmos mergulhados na fumaça
de um passado acomodado na memória
que proibimos de sair pra ninguém ver.

E como ficamos ridículos!
E como ficamos trêmulos!
E como, à noite, os temores nos assustam.

O que fazem de nós, os temores!
nos chicoteiam, passam a mão na nossa bunda,
nos cospem na cara
e nos chamam de covardes.

E como ficam enormes!
Como se agigantam!
Como dançam cinicamente à nossa frente!
E como corajosos de medo ficamos!
E como levantamos, acendemos a luz,
acendemos o cigarro,
abrimos a cerveja
e madrugada adentro ficamos sós...
Ficamos sós,
nós e nossos temores,
mergulhados na tênue linha dos mortais,
no fumo e no álcool (um procurando o outro)
numa festa macabra e sem final.
(Santos/Sp-00:01hs)

publicado por Antonio Medeiro às 09:33
Terça-feira, 07 / 12 / 10

A fita

Casado sou há mais de 20 anos.

Sabe como é que é!

Alegrias, tristezas... tristezas&alegrias.

Às vezes penso no passado.

Aquelas coisas de homem casado.

Aquelas lembranças boas, boas, boas, ruins... boas&boas&boas. 
O sol nasce, se põe; a lua nasce, se põe... e a vida vai rolando dentro da medida do possível.

É a vida de um homem casado... e também de uma mulher casada!

Outro dia fuçando numas coisas velhas - aquelas coisas do passado que você nem se lembra mais que existem - achei a fita de vídeo do meu casamento.

Nem me lembrava mais que o meu casamento tinha sido filmado.

E nunca assisti à danada da fita!

Não se assiste a uma coisa dessas!

Nem naquele momento pensei em tal coisa!

Guardei novamente a fita.

Alguns dias depois dei de cara com a bendita fita: ela estava no vídeo.

Minha mulher já tinha assistido - depois me lembrei - umas 50 vezes e assistiu de novo.

Pensei: não é justo! Vou assistir pelo menos uma vez.

Liguei o vídeo.

A fita não tinha rodado totalmente.

Estava na hora do beijo, depois da aliança.

Apertei aquela setinha de voltar com a fita sendo executada.

Qual não foi minha surpresa ao me ver desbeijando a noiva, tirando a aliança do seu dedo, saindo da igreja, dando adeus pra todo os convidados e voltando rápido para a despedida de solteiro.

Uau!!!

Desde então assisto à fita todos os dias.

Mas só de trás pra frente! .
E o momento que eu mais gosto é quando eu desbeijo a noiva, tiro a aliança do seu dedo, saio da igreja, dou adeus aos convidados e volto pra despedida de solteiro.

Final perfeito para o que seria uma tragédia.

E foi!!!

De sonho também se vive!

E se apanha!!!

publicado por Antonio Medeiro às 09:42
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Adamo&Isabelle

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