Homens&Pássaros

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Terça-feira, 28 / 09 / 10

Os tristes

Vou baixar um decreto para a minha vida:

Vou excluir gente triste da minha convivência!

Eu quero distância de gente triste.

Vou deixar os tristes com a sua tristeza.

Os tristes com a sua solidão.

Os tristes com as suas manias de entristecer as tardes... e os amanheceres.

Gente triste é como erva daninha: onde nasce toma conta de tudo, se sobressai com a sua feiura e o seu poder de destruir os momentos inesquecíveis.

Para os tristes a vida é só dificuldade:

É doença.

Fracasso.

É não ter sentido.

É todos os dias serem cinza.

Os tristes não enxergam o sol.

A amor é um fardo.

A música, tortura.

O dia a dia impossível.

Os tristes vivem nas cavernas escuras das suas infâncias reprimidas.

Daquela família triste.

Aquelas regras tristes.

Aquele não poder nunca.

Aquele não sorrir para sempre.

Os tristes não sorriem; às vezes apenas riem por conveniência ou por estarem nervosos.

São críticos ferozes "da alegria", "dos alegres", "dos fúteis", "destas pessoas que vivem rindo", "destas festas", "destes cantos sem motivos", "destas pessoas que vivem a vida de maneira irresponsável", "dos sem-vergonhas".

Os tristes são um fardo.

É pesado conviver com os tristes.

Os tristes deveriam fazer um favor a si mesmo e aos outros.

Deveriam ficar reclusos na sua solidão.

Não deveriam espalhar voluntariamente sua tristeza para a vida.

Ser triste é triste.

Exclua os tristes da sua vida.

Eles nos fazem mal.

Eles enxergam a vida de uma maneira cruel.

Não existe vida boa nem gente boa.

Tudo é feio e tem um motivo sórdido para existir.

Vivem num mundo escuro.

Não conhecem a beleza.

Os tristes são seres que transitam entre a vida e a morte.

Entre a luz e as trevas.

Entre você e a felicidade.

Os tristes não amam, odeiam.

Os tristes são passionais.

Têm as asas de cera.

O coração de gelo.

Os tristes nos deixam tristes.

E tristeza só é bom quando temos um motivo muito triste para ficarmos tristes.

publicado por Antonio Medeiro às 09:23
Terça-feira, 21 / 09 / 10

50 anos I

Às portas dos 50 anos
o poeta, astro maior,
é só brilho.

Fundiu-se na galáxia
e espalhou-se em fragmentos
nos olhos do tempo.

Sangra os pés
nas pontas brilhantes das estrelas
e seu coração,
lua cósmica,
minguando no universo,
explode em feixes de luzes
e ilumina, suavemente,
sem preconceitos,
o casal de humanos
- à beira do mar -
insanos!
(Eunápolis/ba/10:34hs)

publicado por Antonio Medeiro às 06:09
Terça-feira, 14 / 09 / 10

O Pinta-Brava

Outro dia eu estava em um forró numa barraca de praia.

Um grupo executando um forró pé-de-serra de boa estirpe.

Estava olhando o sanfoneiro - forrozeiro nato - e me lembrei de um falar que existia em Minhas Gerais nos meus tempos de criança:

"Fulano é Pinta-Brava!".

Comentei com Mél: coitada da mulher deste sanfoneiro, o sujeito é Pinta-Brava! Ele pertence ao forró.

É só olhar:

O sujeito é um condor sobrevoando as montanhas.

Um búfalo nas pradarias do velho oeste americano.

Um tubarão cortando as águas do oceano.

Um carioca assistindo a um FlaFlu.

Um brasileiro que ganhou a mega-sena.

É um homem livre.

O gingado do corpo, o manuseio da sanfona, a voz, o sorriso, a simpatia nata, o jeito com as mulheres, o repertório colocam o sujeito numa noutra esfera.

Não é um sujeito comum.

Não nasceu para fazer contas em bancos.

Usar a picareta na rua.

A enxada na roça.

A caneta no escritório.

O bisturi no hospital.

A voz na tribuna.

Não nasceu para fabricar bens.

Nasceu para tocar sanfona.

É um xifópago.

Nasceu grudado com ela.

Nasceu para fabricar sonhos.

São carne&unha.

Romeu&Julieta.

Tristão&Isolda.

Marco Antônio&Cleópatra.

Mar&horizonte.

É um sujeito fora das leis do universo.

Não é pobre nem rico.

É apenas um sujeito com o seu ritmo.

Com a sua música.

A sua alma despojada de tristeza.

Vive acima dos vis mortais que - sem importar a idade - encantados com a sua magia dançam, cantam, pulam e se rendem aos encantos de um homem que nasceu para sublimar.

Domingo eu vou de novo.

Quero me render aos encantos do Pinta-Brava.

E reencontrar o meu ritmo, que há muito tempo perdi!

publicado por Antonio Medeiro às 09:06
Terça-feira, 07 / 09 / 10

Histórias nenhumas

Não há sentimento mais vazio
que o vestir-se do drama
de uma história de ausências
de uma ausência sem histórias.

Do que ver pelas janelas
aqueles pedaços de vida
sozinhos pelos desertos
desfilando seus horrores.

Uma história nenhuma
com muitas histórias nenhumas
numa vida nenhuma
sem nenhum amanhecer.

Não há sentido de mundo
há um rastro invisível
de completa escuridão
permeado por abutres.

Não há nascer ou dormir
não há morrer ou acordar
existe um estado líquido
entre o não estar e o estar.

Não há história nenhuma
nas páginas dos jornais
não existe vida em jogo
nem homem para chorar.

A noite do homem sem história
avança, patética, a clarear
o sonho que não foi sonhado
porque não há mais nada a sonhar.
(Eunápolis/BA/09:38hs)

publicado por Antonio Medeiro às 10:41
Blog de TõeRoberto

Adamo&Isabelle

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