Esquece, amada!
os dentes destes poemas,
estes inúteis sacrilégios de rimar
amor e dor,
fúria e injúria,
e coisas mais
e vem comigo, em viagem sem destino,
à procura de uma rima mais astuta,
mais audaz.

Que tal patético?
Epilético?
Ou caquético?
E por que não um verbo feio
pra chocar?

Que tal calar?
Ou desprezar?
Ou consentir?
E por que não silenciar?

Que tal, amada,
uma rima desbotada
como sorrir,
aquietar-se
ou desprezar?

E por que não fazer o poema
sem a rima,
sem seu ritmo,
seu flutuar?

Por que não deixá-lo torto,
não deixá-lo morto,
não deixá-lo como ele está?

Por que fazer o poema
se não se acha uma rima
para fazê-lo voar?

Esquece, amada!
Não há poema para rimar,
não há rima para explicar,
não há nada pra se falar,
do sentimento profundo
de nós dois,
pobres poetas,
que vasculham o alfabeto
à procura das palavras
para o poema alinhavar.

Esquece, amada!
Nada mais vou procurar,
eu tenho medo por nós,
o poema é perigoso
e pode achar uma rima
para o verbo magoar.

E se eu achar esta rima,
a rima certa, dolorosa,
a rima dura,
a rima pura,
a rima rica para rimar?

Se eu achar esta rima
na certa , amada minha,
os corações vão sangrar.
(Santos/Sp/Parte Final/11:35hs)

publicado por Antonio Medeiro às 03:16