Sobre ontem à noite
na interminável madrugada de silêncios
eu quero derramar o meu pesar.

Quero concluir o inventário
das quinhentas mortes que vivi
e selar com a saliva clara
tantos segredos que eu li.

Não sou tão próximo de mim mesmo
não costumo atravessar os meus limites
pois tenho medo das penumbras
que no sonho atravessei sem perceber.

Sobre ontem à noite
nada restou do meu arbítrio
ficou um gosto de cinismo
encravado nos meus dentes de metal.

Já não entendo os meus sentidos
estão próximos demais pra se pegar
os meus sentidos estão frios na escuta
de alguma coisa que virá me triturar.

Sobre ontem à noite
nada ficou de lembranças para lembrar
ficou um pouco dos silêncios das cortinas
um pouquinho do subúrbio a lamentar
um pouquinho da loucura a se espalhar.

Ficou um pouco do desejo de vingança
só um pouquinho de furor a se esgueirar
por entre os nervos dos meus olhos extravagantes
que no momento fazem tudo pra me arruinar.

Sobre ontem à noite
do inventário nada restou pra se falar
ficou tão quieto aquele momento sem beleza
ficou tão muda aquela certeza do pesar
ficou tão clara a solidão pelas tabernas
pelos prostíbulos, viadutos, porto e mar
que o silêncio tão vigoroso dos ouvidos
deitou na noite e em silêncio foi chorar.
(Santos/Sp-22:30hs/Segunda-feira)

publicado por Antonio Medeiro às 18:15