Meu canto, amada,
passeia pela cidade sem alma
e descansa no porto.

A fome, embrutecida mulher,
discursa calma na periferia do porto
e espalha com pressa
sua doce mentira.

O trigo não alimenta
ele abastece de ouro
o estômago dos navios
e derrama o suor salgado do homem
no oceano de sal.

Ao longe, amada,
os guindastes transportam
o sofrimento humano
em pesadas cargas.

Os navios, criaturas pré-históricas,
chegam e partem
trazendo e levando em cada saco
em cada container
um pedaço de alma
um pedaço de corpo
um pedaço de vida.

E ninguém se importa.
Ninguém percebe o sofrimento duro
que os navios transportam.

Os homens procuram comida
(uns nos bares, outros nos lixos)
e comem suas feridas estampadas no bife
e no pão amanhecido.

Estou apreensivo, amada,
amargurado e pensativo
sentado no cais infinito.

Não penso em navios
nem em trigo
nem em feridas.

Penso na alma dos homens
suas vidas tristes
seus olhos sem ritmo
seus corpos anfíbios.

Penso neles, amada,
e no espelho das águas,
à beira do cais,
sou um deles
a vigiar navios.

Ah, amada,
como sou patético
a contar navios e navios
de sofrimento humano
como quem conta estrelas.

E o que importa isso?
Nada os detêm.
Nada os interceptam.

Longe, agora pequeninos,
eles avançam nas águas
carregados de dores
e sem qualquer importância
caem um a um
no abismo azul e profundo
do horizonte sem fim.
(Santos/Sp/13:10hs)

publicado por Antonio Medeiro às 06:58