No coração da noite
pinceladas de trevas
expõem,
como rosas de fogo,
as feridas da amada.

Ó amada querida, não sofras!
Por ti deixei o paraíso
e desci ao inferno da vida.
Vasculhei os profundos poços da tristeza
e encontrei os teus olhos molhados
de úmida madrugada.

Nada entre nós foi tudo
fomos um pouco de ausência
um pouco de esquecimento
e esquecemos nossa aliança de amor
nas esquinas de Olinda.

A cidade caía sobre nós feito chuva
uma forte chuva ácida
corrosiva e quente
que destruía o esmalte dos desejos
e da vontade construída pelos anos vividos.

Tua ferida amada
não mostra só a ti sozinha e decepcionada.
Mostra também a mim
um retalho de horizontes
dentro do mar ensimesmado.

Caí contigo.
E juntos rolamos pelas ladeiras do Carmo
em gemidos de dor e desespero.
A rosa vermelha se abria
o coração pulsava.
De onde viéramos não constava o mapa
e onde estávamos era um fronteira sem marcas
um território longínquo
um estar sem alma
um pesadelo sem dormir.

Por isso amada
a ferida se abre.
Hoje ela se abre no leito desfeito
e se esparrama amarga pelo tempo
e nada conseguirá deter o ressentimento
daqueles momentos doídos
daqueles momentos líquidos
que escorreram entre os dedos trêmulos
daquelas tardes cinzentas.

Dorme, ó amada!
ao teu lado morrerei um pouco
mais um pouco da morte que já sou
e velarei em silêncio o teu segredo
e afagarei com espinhos
a rosa que se abre
no fundo fechado dos teus olhos
de onde as lágrimas escorrerão macias
e molharão a noite
de uma maneira suave e triste
como se fossem nossas vidas
hoje tão distantes de nós
hoje tão adormecidas
hoje tão definitivamente sozinhas.

Santos/sp/13:25hs/Domingo)

publicado por Antonio Medeiro às 08:49