O céu me parece ferro
uma mina de Minas ao céu aberto
e os meus olhos ardem às 22:17 da noite
na cidade de Santos
do mar de ferro
dos homens de ferro
no porto.

Um incidente qualquer poderia acontecer.
Um navio naufragar.
O céu cair.
O relógio andar.
E eu respirar.

Está tudo tão quieto na cidade de Santos.
Está tudo tão igual.
Tudo tão morto.
Tudo sem fôlego.
Está tudo eu na cidade de Santos.

Um incidente qualquer poderia acontecer.
E se eu não estivesse sozinho?
E se eu não escrevesse este poema?
E se eu não pensasse nisto?
E se eu me matasse por engano?

Se o céu não fosse tão duro
certamente eu estaria
no alto do Monte Serrat
à procura de uma estrela.

Mas o céu é tão duro
tão presente
e o porto tão quieto
tão distante
que eu penso nisto.

E por isto eu me consinto
a crer que o meu silêncio
é impossível
que o meu silêncio é parecido
com a alma que carrego
noite acima.
(Santos/SP-Sexta-feira-22:36hs)

publicado por Antonio Medeiro às 16:07