Homens&Pássaros

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Terça-feira, 10 / 07 / 12

Filosofar não envelhece

As pessoas não gostam de determinados assuntos.


Tentam esconder, a qualquer custo, o efeito do tempo em suas vidas, como se envelhecer fosse algo vergonhoso.


Cabelos brancos, calvície, queda dos dentes, a libido em baixa, rugas, barriga, seios e nádegas flácidas, pintas... um horror!


Querem ser eternamente jovens.


Cremes, tintas, remédios, academias, cirurgias plásticas, dietas, spas, massagens, etc, etc, etc...


A indústria do rejuvenescimento trabalha a mil para alimentar a voracidade de homens e mulheres que buscam, na tecnologia, a sua fonte da juventude.


E a indústria da 'beleza' espalha pelo mundo o seu glamour, alimentando o ego das pessoas vaidosas.


É necessário isto?


Não nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos?


A vaidade excessiva não é uma doença?


Não é mais barato tratar a vaidade do que alimentar a vaidade?


Tirar aquela ruga dos olhos melhora a ansiedade?


A euforia por aquela cirurgia nos seios dura um mês inteiro?


O implante de cabelos faz com que o sujeito durma mais tranquilo?


O sorriso com os novos lábios da Angelina Jolie melhora o humor?


Uma pessoa deve mexer no seu corpo se não estiver doente?


Sei lá, eu sou 1/2 caipira e não gosto muito dessas coisas.


Acho que a vida é extremamente educada e cuidadosa com a gente.


Ela passa devagar e vai nos transformando vagarosamente, imperceptivelmente, da maneira mais poética possível.


E os dias vão passando, e parece que junto com eles vamos amadurecendo a nossa capacidade natural de envelhecer sem traumas.


E também vamos enxergando menos, vamos ficando menos exigentes, menos obcecados com a eternidade.


E, uníssonas, todas as nossas partes vão se transformando no mesmo ritmo... uma orquestra em execução ao cair da tarde.


Com o maestro tempo movimentando a sua batuta invisível.


TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 21:00
Terça-feira, 26 / 06 / 12

Acaso

Com 10 ou 60 anos a verdade é uma só.


Vivemos à mercê do acaso.


Não temos o menor controle sobre o nosso destino.


Num momento estamos com saúde, noutro estamos em dificuldades.


Noutro momento estamos no controle, logo em seguida estamos à deriva.


Alguns dirão que não, que temos condições de controlar nossas vidas.


Eu acho que é um falso controle.


Muita gente não gosta de determinismo.


Eu também não gosto, mas acho que estamos fadados à sua lógica.


Acho que nascemos com data e hora para morrer e não há nada que se possa fazer.


Uma ação nossa sempre desencadeia uma reação, um fato novo.


E de ação em ação vamos traçando a teia complexa do nosso passamento.


E por mais que queiramos ser racionais nosso dia a dia é sempre recoberto por uma aura de mistério... de espera.


Será hoje?


Será amanhã?


Depois de amanhã?


Não adianta!


Manda o pau e vá em frente!


Que o seu nome consta da agenda e não há nada que você possa fazer.


Um dia podemos discutir sobre isto nos Jardins do Éden.


No Caldeirão do Inferno.


Ou num lugar qualquer.

 

TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 18:01
Terça-feira, 12 / 06 / 12

Demolição da Casa Mourisca

Anos atrás, no início da década de 80 - não sei precisar quando - escrevi o poema 'A Demolição da Casa Mourisca'.


A casa, em questão, era um dos casarões da Avenida Paulista, em São Paulo, que estava na mira da Secretária da Cultura para ser tombada pelo patrimônio histórico e foi demolida pelos proprietários para evitar o tombamento.


Pela sua beleza, seu valor arquitetônico e histórico criou-se uma resistência contra a sua demolição porque três outras casas já haviam sido demolidas pelo mesmo motivo.


Briga pra cá, briga pra lá, uma madrugada, ao retornar de táxi pra casa, fui testemunha do início da demolição.


Vi de perto o 'Senhor Capitalismo' trabalhando na calada da noite com todo o seu furor e ganância.


Do táxi, pude observar o interior do banheiro superior da casa, já que a parede estava no chão.


Observei também uma das salas do térreo, sem parede.


O jardim, antes lindo, cheio de entulhos.


E eu comecei a pensar nas pessoas que nela viveram... independente de questões político-sociais.


O táxi seguiu, a casa morrendo... o poema nasceu.


Assim:


O que farão com o tempo que passa na Casa Mourisca?
Passarão uma borracha, jogarão borrão de tinta?


O que farão com as paredes que erguem a Casa Mourisca?
Erguerão um novo templo, contando histórias vividas?


O que farão com o telhado que cobre a casa Mourisca?
Construirão novos abrigos, por todos os seus sentidos?


E os fantasmas das avós que habitam a casa Mourisca?
Gostarão do espigão que ali será erguido?


E o choro da criança aflita que enche a casa Mourisca?
Chorará na eternidade entre o concreto e o vidro?


E o rangido de portas que assustam na Casa Mourisca?
Habituarão com o óleo que virá nas dobradiças?


O que farão com os afetos que dormem na Casa Mourisca?
Acordarão com o barulho do martelo demolindo?

 

O que farão com os sonhos que vagam na Casa Mourisca?
Colocarão num caixote, jogarão numa piscina?


O que farão com os mortos que jazem na Casa Mourisca?
Desenterrarão os seus ossos, levarão para a polícia?


E os beijos apaixonados que estalam na Casa Mourisca?
Agüentarão os estalos da máquina de datilografia?


E os abraços fogosos que aquecem a Casa Mourisca?
Não ficarão resfriados com o frio do alumínio?


E os coitos angustiados que marcam a Casa Mourisca?
Não ficarão sem orgasmo no frio da secretaria?


O que farão com a vida que foi a Casa Mourisca?
Transformarão em poeira, queimarão os registros?


O que farão do orgulho do rosto da Casa Mourisca?
Baterão com o ferro, racharão sua superfície?


O que farão com os cantos que cantam na Casa Mourisca?
Levarão pra praça pública, condensarão em um disco?


E o chá das quatro horas que alegra a casa Mourisca?
Será transformado em café, comprado na padaria?


E os jantares de gala que cheiram na Casa Mourisca?
Sucumbirão perante o queijo, o presunto e a lingüiça?


E os talheres de prata que brilham na Casa Mourisca?
Perderão todo o seu brilho, será o mesmo que lixo?


O que será deste mundo de todas as casas Mourisca?
Também não será respeitado, também não terá justiça?


O que será desses homens que roubam a casa Mourisca?
Viverão impunemente seus dias de confraria?


O que será desses homens que matam a casa Mourisca?
Receberão no fim do mês seus salários de assassinos?


O que será de nós todos, amigos da Casa Mourisca?
Choraremos sua queda, pra esquecer em seguida?


Enfim, foi só uma casa... só um poema!


Mas às vezes a vida nos chama às falas.


E, de uma maneira ou outra, temos que conversar.


Foi o que fiz.


TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 18:00
Domingo, 20 / 05 / 12

Sem palavras

Anteontem fui dormir sem palavras.


Sonhei sem palavras.


Acordei, ontem, sem palavras.


Fui ao banheiro sem palavras.


Escovei os dentes sem palavras.


Tomei banho sem palavras.


Vesti a roupa sem palavras.


Conversei com meu amor sem palavras.


Tomei café sem palavras.


Saí pra rua sem palavras.


Entrei no ônibus sem palavras.


Trabalhei sem palavras.


Almocei sem palavras.


Trabalhei de novo sem palavras.


Voltei pra casa sem palavras.


Tomei banho sem palavras.


Comi sem palavras.


Assisti à novela sem palavras.


Fui pra cama sem palavras.


Transei com meu amor sem palavras.


Dormi sem palavras.


Sonhei novamente sem palavras.


Acordei, hoje, sem palavras.


Escrevi este post sem dizer palavra.


E você, caro leitor, ficou sem palavras!


TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 17:00
Quarta-feira, 18 / 04 / 12

Desabafo

Diante das atuais circunstâncias, só tenho 5 opções na vida:


Ou corto os pulsos, me enforco, como vidro moído, bebo até morrer, ou me afogo no vaso sanitário.


Drástico, não?


Pra você também seria se você estivesse devendo R$10.543,50 para o Visa, R$3.981,43 para o Mastercard, R$4.151,75 de aluguel, R$7.420,94 de cheque especial, R$2.739,80 de telefone, R$4.942,51 da faculdade dos filhos, R$875,00 para o vizinho, R$2.139,00 de cheques pré-datados para o PãodeAçúcar, R$2.387,97 da pensão dos filhos, R$983,40 na oficina mecânica, R$431,84 na padaria, R$2.451,80 de conta de luz, R$1.493,78 de conta de água, R$658,77 na farmácia, 15.000,00 para um monte de amigo, R$4.546,60 no boteco da esquina, etc., etc., etc.


Você tá pior que eu?


Impossível!


Se estiver, você precisa de alguém pra te ajudar.


Alguém pra passar super bonder no dedo, rolar no vidro moído e introduzi-lo no seu orifício anal pra ver se você cria um pouco de juízo.


Só assim ficaria pior.


Que aí, além de dever pra cacete, você estaria levando no furico.


E eu vou dizer, meu amigo:


Isso não é ficção!


Qualquer semelhança com a sua vida real não é mera coincidência, é intencional.


Dever, no Brasil, é um ato cívico.


Sem dividas, sem mordomias.


E todos os agiotas: particulares, bancos, administradoras de cartão de crédito e o governo agradecem.


Afinal, o governo não investe parte do dinheiro da sua agiotagem nas universidades?


O governo não é um grande formador de idiotas?


De consumistas compulsivos?


Pois é!


Bem-vindo ao clube!


E se quiser se matar entre na fila.


TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 23:57
Quarta-feira, 21 / 03 / 12

Multiplicando o DNA

Xinguem-me, execrem-me, fodam-me...

 

Me chamem de babaca.


Mas este negócio de multiplicar DNA é um saco.


Uma filha com a sua cara?


Legal!


Um filho com o seu gênio?


Deus nos acuda!


E o que é o DNA na prática?


Um moço, uma moça, bonitos, pintosos, fofos que, na prática, gostam de você?


Mais ou menos.


Na verdade eles são pessoas adultas que questionam o tempo todo o seu modo de educar... de conviver.


E você fica o tempo todo tentando convencê-los que a vida é foda.


Que se não correrem atrás do prejuízo a danada vai mastigá-los.


Vai degluti-los como um bombom macio e doce.


E daí?


É o que dizem.


Eu fico olhando e pensando.


A juventude, os filhos, pensa que a mordomia oferecida pelos pais é eterna.


Esquecem que morremos e que vão ficar no mundo com a sua rebeldia sem causa.


Com os seus 'gênios' difíceis sem ninguém para suportá-los.


Porque o mundo longe da barra da calça/saia do papai e da mamãe é de crueldade extrema.


E só vão entender isto daqui alguns anos.


Quando, talvez, seja tarde demais.


É uma pena!


Eles resistem à nossa tentativa de vê-los bem, tranquilos e felizes.


Vivendo num futuro próximo.


Educando seus filhos para a vida com mais competência que nós...


Que vivemos dando murro em ponta de faca, carregando água com a peneira...


E com o coração na mão!


TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 18:14
Sexta-feira, 09 / 03 / 12

Lua alcoólica

A mulher e a caipirinha

o demônio e o inferno

dentro de mim.


Ninguém me mataria hoje

ninguém me beijaria

ninguém me cuspiria

ou xingaria minha mãe.


Ninguém sabe

mas há muito tempo

a vida não termina hoje

nem amanhã

quem sabe no mês que vem.


Não me importo:

amor, posição, dinheiro

as três estações do homem

ninguém sabe, nem saberá!


A noite comprida

esta rua estreita

ninguém sabe o que será.


Sejamos compreensivos

com esta lua alcoólica.


Vem comigo

a mulher espera

com as tetas...
e o cigarro na boca.

Ninguém sabe

mas a mulher espera

há mil e novecentos anos

ela espera que a gente entenda

que nas tetas malabaristas

está escondida a vida.


Ninguém sabe, nem saberá!

 

TõeRoberto

publicado por Antonio Medeiro às 20:11
Blog de TõeRoberto

Adamo&Isabelle

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